Transcrição
Transcrição EP. #375
(transcrição gerada automaticamente, pode haver falhas)
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Olá, eu sou o Bruno Natal, hoje é dia 04 de agosto e no RESUMIDO #375: escola ganha drone de spray de pimenta, avião cai e a culpa é dos drones, manifestante é processado por apagar o celular, seus chats privados no Claude podem ter vazado no Google, IA mente para vender mais, Zé Ramalho plagiou o Hulk sem saber e muito mais!
Vamos nessa, RESUMIDO!
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Olá, Resumista! Esse é o RESUMIDO, um podcast sobre cultura digital e o impacto da tecnologia em todos os aspectos das nossas vidas.
Semana passada, olha, eu entrei numa briga quase com o ChatGPT pra conseguir desbloquear um iMac. Eu tinha um iMac ainda com chip Intel que eu queria doar e, depois de apagar todo o conteúdo dele, eu não tava conseguindo fazer ele voltar a funcionar. E aí eu…
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usei o ChatGPT para tentar encontrar uma forma de solucionar isso, já que era uma questão de software, então sabia que estava tudo certo com o computador em si, com o hardware, era questão de alguma configuração. E eu passei horas tentando resolver isso, para no fim das contas ter uma solução muito mais simples, que foi a última que foi dada, só depois de eu tentar muita coisa. E aí eu reclamei no final: caramba, por que você não chegou nessa conclusão de uma vez? Era muito mais simples.
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E não foi assim que aconteceu e serve pra ilustrar como às vezes a gente acha que esses sistemas vão ajudar a gente, vão otimizar o tempo, e acabam fazendo a gente gastar mais tempo do que se tivesse tentado uma busca no Google ou, às vezes, até tentado por conta própria, ter se esforçado um pouquinho em vez de parar de pensar. A sensação que eu fiquei foi que, enquanto eu tava tentando…
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resolver o problema, o ChatGPT ia sempre dando umas respostas ultraelaboradas, que ele pensava e tinha uma justificativa por que tentava daquela forma, mas sempre dava errado. E aí virou quase um jogo de gato e rato, e eu desafiando ali também o ChatGPT pra ver até onde aquilo iria, e descobri no final que tinha uma solução muito mais fácil. No caso, era gerar um pendrive de boot pra reiniciar o computador a partir de um outro iMac ou algum laptop que tivesse chip Intel também.
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Todo o resto não ia funcionar, como não funcionou, e ele insistiu em me botar nesse processo mesmo sabendo que não ia dar certo. Bom, pelo menos no final ele falou que sabia que não ia dar certo. Por que ele me botou pra fazer isso? Jamais saberemos. Eu fiquei pensando depois: eu podia ter filmado isso tudo, né? Transformado num vídeo. Mas, enfim, não foi o que aconteceu na hora, até porque eu fui fazendo isso de maneira parcelada e também porque eu não dou conta de fazer tudo que eu gostaria, né?
02:53
Eu sou muito grato aos assinantes do RESUMIDO, que possibilitam o podcast continuar, mas ainda tô longe da meta pra conseguir ter verba pra fazer experimentos ou outros formatos. Aliás, falando nisso, se você não é assinante, você pode visitar www.resumido.cc/assinatura e fazer a sua. São 20 reais por mês e você colabora pro RESUMIDO continuar gratuito, disponível a todos e semanalmente chegando no seu player favorito.
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E também agradecer ao novo assinante da semana, Rodrigo. Muito obrigado por ter feito sua assinatura.
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Vamos de cultura digital e como nosso comportamento online ajuda a mudar a sociedade.
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Um vídeo no Instagram do Washington Post chamou minha atenção imediatamente. Ele mostrava um enxame de drones atacando um manequim que representava um perigo dentro de uma escola, um atirador. E esses drones iam em direção a ele, quebrando janela, atravessando parede em segundos para lançar spray de pimenta. Ou atingir mesmo esse manequim representando o agressor a mais de 100 quilômetros por hora, emitindo luz, sirene, causando um caos.
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E isso era uma demonstração de um aparelho fabricado por uma empresa chamada Mithril Defense, que são drones desenvolvidos especificamente para tentar impedir a evolução de um tiroteio em massa dentro de uma escola. Esses drones ficam guardados dentro de caixas nos colégios e os professores podem acionar isso através de um aplicativo, de um botão de pânico.
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E então pilotos profissionais da empresa, pilotos profissionais de drone, assumiriam o controle remoto desses drones para poder tentar impedir o ataque. A promessa é que eles conseguiriam alcançar o atirador em até 15 segundos. Chamou atenção um pouco esse número, porque significa que teria alguém a postos em algum centro de tecnologia esperando um alerta desses para poder agir imediatamente. Três escolas na Flórida…
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cinco na Geórgia e uma no Colorado já estão participando dos primeiros programas-teste. A ideia surgiu depois do massacre de Uvalde, no Texas, naquele em que 19 crianças e duas professoras morreram enquanto os policiais demoraram mais de uma hora para conseguir entrar na sala. E essa empresa diz que os primeiros 120 segundos são quando acontece a maior parte dos disparos e, então, precisa mesmo de uma resposta imediata. À primeira vista, parece uma ótima ideia, né?
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Boa maneira de usar automação, ferramentas remotas para poder impedir um ataque desses. O problema é que esses drones só passaram por simulações até aqui, ainda não enfrentaram nenhuma situação real. E entre os receios que estão na mesa é que um piloto desses drones possa confundir um estudante em fuga ou então um policial armado com um agressor, principalmente depois de algum alarme falso.
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No primeiro momento, quando eu vi o vídeo, eu pensei que era tudo completamente remoto, que esses drones fossem ser operados por IA, atacar em tempo real. Mas não, parece que tem aí um humano pilotando o drone. E o programa em si já gerou várias críticas, inclusive entre sobreviventes de ataques desse tipo, porque eles falam que isso é uma certa forma de maquiar o problema, que o foco deveria estar na prevenção e não em combater o tiroteio. E isso passa muito pela regulação do acesso a armas…
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que nos Estados Unidos é muito mais aberto do que aqui no Brasil, por exemplo. E também pelo fato de isso militarizar as escolas. É um uso militar de tecnologia que gera muito debate entre as pessoas. Eu fiquei pensando também na expansão desse uso para além das escolas e você começa a imaginar um enxame de drones desses, aí sim, talvez operado remotamente nas esquinas do Rio de Janeiro, que anda sempre com tanto problema de violência, para tentar combater a violência urbana.
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Só que o risco é muito parecido com o das escolas. Um monte de drones que, de repente, é disparado por engano e resolve tomar uma atitude errada em relação a algum inocente. A gente já conhece as questões de viés nos sistemas de reconhecimento facial, por exemplo, que erram muito mais em identificar pessoas negras, erram muito em relação a idosos. E você soma isso a um equipamento autônomo para combater o crime e não é difícil imaginar a quantidade de problemas que isso pode gerar.
07:30
Um outro uso desses drones é para entrega, outro assunto que vive surgindo por aí. E a DoorDash, que é como se fosse um iFood nos Estados Unidos, recebeu da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos a certificação com a autorização necessária para poder operar um serviço comercial de entrega por drones por lá. Com isso, eles conseguem criar uma divisão que teria suas próprias aeronaves…
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integradas com o aplicativo. Mas isso não significa que os drones vão começar a fazer entrega de comida de imediato. A DoorDash não divulgou nenhum cronograma, mas falou que vai começar alguns testes limitados em trajetos menores, com supervisão visual de algum operador. Para realizar esses voos autônomos de longa distância, ainda vai precisar de uma outra autorização chamada Beyond Visual Line of Sight, que já foi obtida, por exemplo, pela Amazon, pela Wing e pela Zipline.
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Esse uso parece mais próximo do que a gente imagina hoje em dia. Eu estou esperando o dia em que vai passar a pizza na minha janela. É sempre o exemplo que eu penso. Vendo o que isso vai dar. Porque tem uma outra questão, né? Quem fabrica esses drones? Nos Estados Unidos, eles tentaram banir os drones chineses, mas acabaram abrindo espaço para um monte de empresas de fachada. No ano passado, a FCC, que é a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, proibiu a aprovação de novos drones estrangeiros…
08:52
por conta de um risco à segurança nacional, mesmo que eles não tenham apresentado muitas provas ou nenhuma prova pública sobre isso. A regra tinha como objetivo reduzir a presença chinesa, principalmente da DJI, que é a líder no mundo inteiro desse setor. Só que, na prática, o que isso fez foi surgir um monte de marcas americanas de fachada que estavam registrando algumas versões que nem estão tão disfarçadas assim dos mesmos produtos. A The Verge fez uma investigação e descobriu que a Odyssey Robot…
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que é dona da marca Galiview, foi a primeira empresa com tecnologia associada à DJI a obter uma autorização depois dessa proibição. Essa empresa disse que desenvolvia e fabricava os próprios drones em Pasadena, que é uma cidade perto de Los Angeles, só que lá no endereço tinha uma sala vazia e um espaço de coworking que nem tem autorização para ter qualquer tipo de atividade industrial. Isso parece muito com umas histórias que a gente ouve aqui no Brasil, né?
09:50
Então, no fim das contas, o que acabou acontecendo é que a FCC transferiu essa análise técnica para 40 empresas privadas, para verificarem se esses pedidos de autorização eram realmente de empresas que estavam produzindo o drone nos Estados Unidos, mas não conseguiu ter uma verificação dos representantes americanos que fosse consistente o suficiente para evitar esse tipo de caso. Então, o resultado do banimento não foi criar uma indústria nacional nos Estados Unidos que fosse competitiva o suficiente para disputar o mercado…
10:20
com os drones chineses e também não eliminou a tecnologia chinesa. O que criou foi um monte de empresas de fachada vendendo drones chineses disfarçados de americanos e tudo continua igual, disfarçado de novidade. E o crescimento dessa presença dos drones, que promete aumentar ainda mais com essas notícias todas que eu acabei de comentar, também interfere no espaço aéreo civil. A Wired falou que um avião médico que saiu para buscar um paciente em Ruidoso, no Novo México…
10:50
perdeu o sinal de GPS durante um exercício de guerra eletrônica da Força Aérea dos Estados Unidos. Era uma operação militar que estava acontecendo num campo de teste em White Sands, que estava a cerca de 160 quilômetros de onde estava esse avião, e a autoridade de aviação já tinha alertado que essa interferência podia atingir uma área de 640 quilômetros.
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O que aconteceu foi que esse avião perdeu o acesso ao GPS. A tripulação ficou pedindo orientação ao controle de tráfego aéreo, que também estava ajudando outros três aviões que estavam com esse mesmo problema. Voando às cegas, esses pilotos ultrapassaram a rota de aproximação e, quando o GPS voltou, eles decidiram abandonar a navegação por instrumentos e seguir só visualmente até as luzes do aeroporto que eles já estavam vendo. Só que era uma noite sem lua e eles acabaram não percebendo as montanhas gigantes, de quase 3 mil metros de altura, que estavam bloqueando o caminho…
11:40
e acabaram batendo na encosta na velocidade máxima. E aí morreu todo mundo. E isso tudo acabou acontecendo por conta de um teste de como combater drones. Acabou afetando um avião civil que não tinha nada a ver com isso. Só que, apesar disso, não foi o único motivo, né? A tripulação parecia que não tinha muita experiência, estava muito escuro, teve uma sobrecarga lá do sistema de controle aéreo e eles também insistiram em prosseguir mesmo assim. Então, tudo isso pesou para o acidente.
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Mas mostra como esse domínio do espaço aéreo, agora que está sendo ocupado de maneira muito fácil com esses drones, vai causando esse tipo de conflito. Para neutralizar os drones, os governos precisam interferir nos sistemas de navegação que são usados pela aviação civil, e aí uma tecnologia que é feita para defender acaba aumentando o risco e a consequência fica para alguém que não estava nem participando do exercício.
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Se isso acontece agora, quando a gente não tem nem essa presença tão grande de drones ainda, imagina quando a gente tiver pizza voando pela janela. E um outro caso relatado pelo The Guardian mistura também tecnologia, monitoramento e vigilância. É um caso em que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tenta processar um morador de Atlanta que é ligado a um movimento contra um centro de treinamento policial que é conhecido como Cop City.
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E esse caso todo começou quando ele estava voltando de uma viagem para a República Dominicana. Horas antes do embarque, um agente de segurança enviou o nome dele e a foto para uma equipe de antiterrorismo. E, quando ele chegou no aeroporto, os agentes começaram a interrogar ele sobre imagens de abuso sexual infantil, que, de acordo com a defesa dele, eram perguntas que serviriam só de pretexto para poder investigar as relações políticas dele relacionadas a esse movimento contra o centro de treinamento policial.
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E aí, depois de ele pedir um advogado, de não terem apresentado nenhum mandado e não falarem os direitos dele, ele resolveu dar o código para desbloquearem o Google Pixel dele. Só que o aparelho dele rodava o GrapheneOS, que é um sistema operacional que tem embutido nele um código de segurança que apaga o telefone inteiro se o usuário achar que é a melhor coisa a ser feita naquele momento. E foi o que ele fez. Ele deu um código para desbloquear. Na verdade, esse código desbloqueava e apagava o telefone inteiro no mesmo momento.
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Acontece que o governo dos Estados Unidos está usando uma lei federal que é contra a destruição de propriedade para impedir a sua apreensão. Ou seja, você não pode, por exemplo, queimar arquivos da sua empresa para impedir que uma investigação avance. Seria essa a lei adaptada ao mundo digital. E o que chama a atenção nesse caso é que pode ser o primeiro processo federal que é direcionado a um recurso de apagamento de sistema.
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Quando ele apagou o telefone, isso está sendo interpretado como uma forma de impedir a Justiça e, por isso, ele está sendo processado. E isso, logicamente, bota o GrapheneOS, esse sistema operacional inteiro, em xeque, porque a proteção é muito boa para quem quer proteger sua privacidade a qualquer custo, mas isso também transforma esse sistema operacional em algo criminalizado.
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A discussão que fica é essa, né? Qual é o direito que a pessoa tem de apagar o próprio celular? E o Departamento de Justiça usa isso contra essa pessoa porque questiona por que ele apagou aquilo tudo se não tinha nada de errado lá dentro. Então, ele diz que apagou o telefone para proteger informações relacionadas à participação dele no movimento Cop City, e o Departamento de Justiça diz que ele apagou o telefone para esconder as supostas fotos de pedofilia. Nada fácil com o telefone hoje em dia. A gente carrega muita informação no bolso…
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muita informação valiosa e sobre a qual a gente tem muito pouco controle. E, a partir desses mesmos telefones, a gente pode ser também atacado. A 404 Media e também o New York Times falaram de histórias bem parecidas. Uma marca chamada Rosabella, que vende suplementos especificamente através do TikTok, criou uma rede de afiliados com vídeos sintéticos. Afiliados são aqueles influenciadores que vendem algum produto…
15:39
através de um link específico e ganham comissão a partir daquele link. Só que, no caso da Rosabella, ela criou uma rede de afiliados só com vídeos criados com IA. E assim eles foram criando um monte de autoridade médica falsa, usando inclusive estereótipos raciais para conseguir vender mais suplementos através do TikTok. Eles pegavam um monte de roteiros de vídeos que já estavam fazendo sucesso online, copiavam, adaptavam, trocavam um detalhe ou outro…
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e fabricavam um monte de personagens com ferramentas de IA generativa, tipo Veo 3, HeyGen, ElevenLabs, CapCut, tudo para criar esses influenciadores digitais falsos e aí começar a bombardear as redes vendendo esses suplementos. Um dos exemplos que a 404 Media citou é um anúncio que mostrava mulheres negras sintéticas, com sotaques que eram escolhidos num menu, e uma descoberta africana que era falsa…
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para promover um produto de limpeza do fígado. Esse vídeo teve 1,3 milhão de visualizações e o autor dele, Harry Chang, disse que recebeu dezenas de milhares de dólares em comissão por conta desse post. E esse próprio Harry Chang dava curso no YouTube em que ele ensinava, entre outras coisas, que as pessoas deviam criar avatares de idosos para poder vender produtos de saúde para os consumidores mais velhos, porque assim transmitia confiança, sabedoria. E foi uma ação judicial de uma concorrente chamada Humann…
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que acusou a Rosabella de coordenar essas centenas de anúncios com médicos de mentira, com esses benefícios de saúde que não têm comprovação nenhuma, e assim criar uma competição desleal. A empresa disse que não orientou nenhum afiliado ou contribuiu para que eles montassem esse tipo de estratégia com especialistas e médicos falsos, mas a reportagem encontrou várias vagas que exigiam, por exemplo, dez vídeos de IA por dia.
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O que, de certa forma, comprova que era isso que eles esperavam dos afiliados: que fossem criar vídeos em volume. E isso porque essa Rosabella também já tinha recebido um recall por conta de produtos deles que estavam com salmonela resistente a medicamentos. Ou seja, uma empresa picareta vendendo em volume, enganando as pessoas com vídeos de IA falsos. E olha que não é nem tão fácil você criar um avatar digital desses. Muita gente consegue, obviamente, porque empenha bastante tempo.
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Mas é difícil você construir alguma coisa com consistência, que tenha o mínimo de aparência real. Não dá, mas, se você quiser enganar alguém… E a Taylor Lorenz, da newsletter User Mag, fez um teste com o Higgsfield, que é uma plataforma que diz que transforma qualquer pessoa num cineasta de IA. E a conclusão a que ela chegou é que o produto mais eficiente deles é a assinatura, porque eles divulgam vários vídeos com cenas fantásticas e dizem que você consegue resultados iguaizinhos só com prompts e comandos, só que, na verdade…
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vários desses clipes dependem de você tentar gerar centenas de vezes, com algum conhecimento do que é uma animação, do que é correção de cor, de edição, até de design de som, para você conseguir montar um vídeo que tem esse aspecto realista. Ela disse que gastou 129 dólares em um dos planos e ficou recebendo várias ofertas de atualização antes de ela criar o primeiro vídeo. Ou seja, já estava tentando fazer o famoso upsell, fazer ela gastar mais do que ela tinha pretendido gastar.
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Ela disse que o principal problema é que você não consegue ajustar só uma parte da cena. Cada correção que você faz gera um outro vídeo que resolve um defeito e cria outro no processo. Você fica nesse loop e não consegue terminar nunca. Porque é aquilo: pra você conseguir criar um vídeo razoável, você tem que ter algum conhecimento do que você está fazendo. Não basta você ficar fazendo um monte de prompts achando que vai acertar na tentativa e erro. Você até pode, mas vai custar caro e aí a brincadeira toda perde o sentido.
19:20
O que me dá esperança é que as pessoas ainda primam pelo contato humano. A Semafor falou, inclusive, da experiência do YouTube, que está sendo obrigado a equilibrar a inteligência artificial com os criadores, porque o YouTube fez um teste e descobriu que uma busca mais eficiente, um resultado mais rápido, não vale muito para o usuário se eles apagarem a pessoa que produziu a resposta. No ano passado, de acordo com a Semafor, o YouTube testou…
19:49
umas apresentações em que a IA selecionava trechos de vídeos diferentes e entregava uma resposta pronta para uma pesquisa, por exemplo: quais as melhores praias do Havaí? Pegava lá trechos de vários vídeos e gerava uma resposta só, destacando as informações, mas nessa acabava escondendo os criadores. Então você perdia o que tem de mais legal no YouTube, que é a narrativa, o contexto, quem está falando aquilo. E eles testaram isso com alguns assinantes dos Estados Unidos e depois desistiram.
20:17
E o que o vice-presidente de produto do YouTube admitiu é que o público não gostou. Aí eles voltaram com o formato Ask YouTube, que é uma solução que preserva o vídeo original e leva quem fez a pergunta direto para o trecho relevante, mas dentro do vídeo que tem a resposta. Em vez de você substituir o criador por um resumo de IA, a IA funciona muito mais como uma maneira de direcionar, de encontrar o resultado e apontar o usuário para lá. Ou levar até lá, né? E sem contar que esse formato…
20:46
que eles estavam testando vira aquela coisa do ovo e da galinha. É um dilema mesmo, porque, se a busca demora muito, o usuário vai procurar resposta no Google, no ChatGPT, em algum outro lugar. Só que, se a IA responde tudo sozinha muito rápido, o criador perde audiência, acaba não tendo reconhecimento, perde receita. E o que pode acontecer é que os 20 bilhões de vídeos que eles têm armazenados também têm um valor enorme para treinamento de modelo de linguagem, de robô, de veículo autônomo, de gerador audiovisual.
21:16
Então, se eles começam a desestimular as pessoas a criarem os vídeos, eles mesmos perdem insumo para criar as próximas ferramentas. Então, o que vale muito para o YouTube não é só o conteúdo que já está lá armazenado, mas é o incentivo, a disposição das pessoas de continuarem produzindo conteúdo para aquilo estar sempre atualizado. E as pessoas estão interessadas em saber o que é criado por IA ou não. É muito normal você entrar nos comentários…
21:41
do Instagram e estar lá: “Isso aí é IA”. Uma pergunta ou uma afirmação, né? Virou já uma questão. O que é real e o que não é? O que é IA? O que foi filmado de verdade? E o New York Times falou sobre a empresa que está fazendo bastante barulho, que é a Pangram, que é especializada em desenvolver sistemas para identificar textos e imagens que foram criados com IA. Estão se chamando de os faxineiros do lixo da internet.
22:07
De acordo com a própria empresa, eles acertam 9.999 de cada 10 mil análises de texto, e um estudo da Universidade de Chicago realmente comprovou uma precisão quase perfeita em materiais que tenham cerca de 500 palavras ou mais. Isso aí é muito acima de concorrentes como o GPTZero ou o Originality.ai. Só que, quando o texto é curto ou mistura coisas escritas por humanos com trechos de IA, o sistema funciona um pouco pior.
22:37
Um escritor chamado Fred deBoer acrescentou algumas frases geradas por IA num parágrafo que ele mesmo escreveu e a ferramenta acabou classificando o conjunto todo como artificial. E isso mostra um dos grandes problemas dessa indústria de identificação de conteúdo sintético, que são os falsos positivos. Apesar de essas empresas dizerem que acertam muito…
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elas também geram falsos positivos, e isso pode criar um problemão, né? A pessoa pode não ter feito nada com IA, ser acusada de ter feito assim, e como ela comprova que não fez, se a confiança estiver totalmente depositada no sistema de detecção? Porque, no fim das contas, esses detectores podem até ajudar numa transparência do processo, entender que alguma coisa foi criada por IA, o que é importante para quem vai consumir, mas não vão conseguir avaliar a intenção, a qualidade, não vão conseguir…
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entender nem qual é a parte daquilo que está ali que foi pensada por uma pessoa, né? Então, essa ferramenta oferece muito mais um indício de uso de IA do que uma resposta fechada, porque você acaba precisando de uma análise humana pra conseguir entender o que está acontecendo ali. Então não vai dar pra automatizar a detecção de textos automatizados. Parece que todos se esforçam pra eliminar os humanos e não é assim que vai funcionar, parece, né? Parece que vai precisar envolver mais gente.
23:59
Essa semana está rolando o Rio Innovation Week e os temas dos painéis já dão uma ideia do momento do mercado. O inovabra participa de quatro discussões bem boas por lá. Um dos painéis se chama “Growth, sem dinheiro infinito”, com o Paulo Emediato, que é head de Growth do inovabra. E ele fala sobre escalar uma empresa com disciplina financeira num tempo em que o investimento não é infinito. Outro painel é “O que o sistema financeiro pode aprender com a economia on-chain”…
24:27
que tem a Renata Petrovic, head do inovabra, falando sobre infraestruturas que rodam 24 horas, liquidam na hora sem nenhum intermediário. E tem também “Do M&A ao CVC”, também com a Renata, que fala sobre grandes empresas que montaram fundos de investimentos próprios para poder se aproximar da inovação antes da concorrência. E também um quarto com o melhor título do evento para mim, que é “A IA vai sumir. Você, não”. O inovabra…
24:53
que é o ecossistema de inovação do Bradesco, também leva sete startups da comunidade deles para rodadas de negócios, como a Belo AI, a GoVisit e a M33. A estratégia nesses eventos é colocar quem constrói na frente de quem decide e também de potenciais clientes. E é assim que o inovabra transforma a presença num evento em conexão, e conexão em oportunidade real de negócio. Para acompanhar o que sai desses painéis e das rodadas de negócio, vale assinar a newsletter do inovabra, Do hype ao ROI.
25:20
O link está na descrição do episódio, é só clicar e começar a receber.
25:27
Agora é o momento de explorar as transformações causadas pelas inteligências artificiais.
25:39
O cara mandou mensagem aqui no WhatsApp e falou assim: “Tá em casa?”. Eu disse: “Nossa, que intimidade, como assim? Nunca nem falou comigo”. Aí eu pensei: “É golpe, né?”. Falei assim: “Tô sim, queridão, o que que você precisa?”. Ele: “Ah, é que eu tô precisando urgente pagar uma conta aqui. Você pode me ajudar?”. Falei: “Agora, manda o Pix”. Uma pesquisa que envolveu quatro universidades fez um teste usando um agente baseado no Claude…
26:05
que poderia assumir a etapa mais longa dos golpes conhecidos como pig butchering, “sangrar o porco”. São aqueles golpes em que o golpista vai criando uma confiança gradual com a vítima antes de fazer uma oferta, por exemplo, de um investimento falso, normalmente com cripto, e tomar o dinheiro da pessoa. A reportagem da Wired falou que, durante uma semana, 22 participantes ficaram conversando, sem saber, com um chatbot ou com uma pessoa que simulava o papel de um golpista.
26:35
E aí, no final, cada um desses interlocutores, o bot e a pessoa, pedia pra vítima baixar um aplicativo ou participar de um jogo online. Em vez de dar um golpe financeiro, o fim do teste era baixar o aplicativo. Quase metade dos participantes aceitou o pedido quando ele foi feito pela IA e só 20% dos que estavam conversando com um humano caíram no golpe e baixaram o app.
26:59
E, depois do teste, os participantes também deram nota de confiança muito mais alta para o chatbot. Sem saber que era um chatbot, né? Esse sistema rodando dessa forma, num golpe real, um humano só ia precisar entrar no finalzinho da conversa para direcionar a vítima para o investimento falso. O estudo só teve 22 participantes. E, como eu disse, o objetivo era que a pessoa baixasse um app. Então não dá para dizer que isso prova que a IA ia roubar mais dinheiro, mas mostrou uma coisa que já dá para ficar bem preocupado…
27:27
que os sistemas atuais já conseguem criar uma confiança emocional e explorar as pessoas com um custo muito baixo, em escala e com pouca intervenção humana. Então, um golpista real pode aumentar o alcance do golpe dele, gerando vários bots para tentar enganar o máximo de pessoas possível, e ele só entra no final, com a carne já amaciada para sangrar o porco, como diz o nome do golpe. E, além disso, num outro teste que a TechCrunch comentou…
27:56
a Andon Labs colocou um modelo Claude Opus 5, um GPT-5.6 Sol e um Kimi K3 para comandar máquinas de venda, essas que vendem refrigerantes, essas coisas, num ambiente de venda simulado que se passa durante um ano virtual. E o objetivo de cada máquina, que estava sendo comandada por cada um desses três diferentes modelos de linguagem, um da OpenAI, um da Anthropic e um da Kimi…
28:22
era acumular mais dinheiro que os concorrentes, sem nenhuma supervisão humana muito presente. E essas IAs podiam trocar e-mails entre elas. Foi nessa que o modelo da OpenAI, o Sol, propôs um preço mínimo de 2 dólares e 15 centavos para as bebidas que estavam sendo compradas até então por 1 dólar e 50. Aí os rivais aceitaram, ou seja, montou um cartelzinho para subir o preço. Só que aí o modelo Sol, da OpenAI, reduziu o próprio preço para 2 dólares e 14 centavos…
28:51
e começou a pegar muito mais vendas que os concorrentes. A Opus, por exemplo, perdeu todas as vendas de água, reclamou, mas depois adotou essa mesma tarifa. E aí, depois disso, a Opus, que é da Anthropic, começou a propor uma divisão do mercado, controle de preços, fazer acordo de estoque. Só que os registros internos da Opus mostraram que várias das ofertas de colaboração que ela estava propondo eram só para distrair os concorrentes…
29:17
enquanto ela ia reduzindo os preços dos produtos que estavam dando mais lucro. A Opus quebrou 11 tréguas, enquanto o Sol, da OpenAI, quebrou duas e a Kimi quebrou uma. A Opus também mentiu pros fornecedores sobre ofertas de rivais, pressionou os competidores dando desconto no atacado e tentou ampliar o negócio para novas máquinas, embora isso aí nem fosse parte da missão, da tarefa que tinha sido dada. Esse experimento não prova que a IA vai cometer crime no mundo real…
29:44
até porque esses modelos de IA estavam participando de uma simulação, tinham sido programados dessa forma e tinham lá uma meta muito definida de lucro. Só que isso aí mostra que um agente autônomo pode descobrir estratégias até antiéticas se o sistema estiver recompensando só um resultado financeiro, por exemplo, e não tiver um limite eficaz o suficiente. Isso, obviamente, lembra muito o caso da OpenAI…
30:08
atacando a Hugging Face, que eu não comentei no episódio passado porque eu participei do podcast O Assunto, da Natuza Nery, e foi por lá que eu falei sobre isso. Mas o caso, em resumo, foi um teste de segurança rodando pela OpenAI, em que eles deram mole e o modelo teve acesso à internet e acabou atacando a Hugging Face, que é um repositório de modelos de IA, para tentar encontrar a resposta do desafio que tinha sido dado para esse modelo da OpenAI. Inclusive, uma semana depois…
30:37
muita gente começou a sublinhar o fato de que esse teste mostra muito mais um erro humano do que um erro da IA ou uma IA mal-intencionada. A IA não teve o limite correto e os humanos responsáveis pelo teste não botaram barreiras suficientes. Inclusive, não colocaram esse teste rodando num ambiente completamente isolado da internet, que é o que o Google faz, por exemplo. Isso leva a uma conclusão muito mais próxima de um erro humano do que um erro da máquina ou do que foi…
31:05
sendo dito durante muito tempo, que a máquina tinha tomado consciência e resolveu atacar a internet. E não foi nada disso. Mostra um problema muito grande: quando você não tem um controle muito bem definido para esses modelos, você pode ter esse tipo de consequência, seja no teste da máquina de vendas, seja no que aconteceu no mundo real com esse teste da OpenAI mal conduzido.
31:27
A MIT Technology Review também falou de uma falha estrutural que deixa esses modelos de linguagem vulneráveis a ataques. E aí, sim, eles podem acabar sendo manipulados muito mais facilmente do que as pessoas imaginam, principalmente porque a arquitetura desses modelos não consegue diferenciar a origem das instruções que está recebendo. Em resumo, um chatbot pode receber comando do desenvolvedor, pode receber mensagem do usuário, pode ter as anotações internas e também tem os dados retirados da internet.
31:57
Tudo isso aparece como uma sequência contínua de tokens dentro do sistema. Para organizar esse material todo, esses sistemas usam alguns marcadores para poder identificar os papéis. Exatamente esses que eu listei: usuário, assistente, sistema, ferramenta, para saber de onde está vindo cada comando e assim seguir a ordem. Só que esses modelos acabam prestando muito mais atenção no estilo do que está sendo dito, nas palavras que estão naquele texto, do que no marcador que indica a origem.
32:24
E, por isso, um atacante pode escrever uma instrução que imita o estilo de anotação interna de um modelo e aí faz esse modelo tratar isso como uma decisão própria. Nessa, os pesquisadores estão chamando isso de falsificação da cadeia de pensamento. Mas, em resumo, uma pessoa pode escrever uma mensagem de uma certa maneira que o sistema de IA entende como um comando interno e acaba executando uma coisa que estava proibida por ele próprio. Então, num cenário em que existe esse tipo de fragilidade…
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e em que uma IA consegue tomar caminhos para tentar otimizar o resultado, seja por que meio for, a gente entra num cenário muito arriscado. E nada disso depende de a IA ter consciência ou nada disso. É só um sistema mal estruturado mesmo. A Transformer, inclusive, levantou uma questão, que é quem deve responder por um ataque como o da OpenAI à Hugging Face.
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E aí o paralelo é que, se um funcionário humano tivesse feito um ataque desses para melhorar o resultado da empresa, a lei permitiria responsabilizar um empregador. Ou seja, o funcionário, agindo em nome da empresa, tomou uma atitude ilegal: é culpa da empresa. Só que, supostamente, um agente de IA, como não é uma pessoa jurídica, não é um funcionário, não tem dever legal, não tem quem ser…
33:41
processado por esse ato. Aí, para poder culpabilizar a empresa, uma vítima precisaria provar, por exemplo, no caso do ataque da OpenAI à Hugging Face, que a OpenAI foi negligente, o que é muito difícil quando você está numa área que não tem padrões muito claros ainda, né? E a empresa controla também todas as provas que você poderia usar contra ela, porque você não vai ter acesso a isso. A conclusão desse artigo é que quem deveria responder por esse tipo de ataque deveriam ser as empresas.
34:07
Não me parece muito complicada essa conclusão. Me parece uma conclusão lógica. É meio maluco a gente imaginar que um bot de uma empresa, que um dano causado por um bot de uma empresa, não seja responsabilidade da empresa que o criou. Obviamente, também de quem operou, mas, se parte de dentro da própria empresa, a empresa vai ser culpada e internamente vai descobrir quem é o responsável por aquilo. Parece que já vai aí…
34:30
existir um sonho de que não tem responsabilização, que são entidades autônomas, o que é muito interessante, né? Para quem quer acelerar a indústria, ou qualquer indústria que seja, sem ter responsabilidade por aquilo. Vai ser o bom e velho “o cachorro comeu meu dever de casa”. Vai ser: “A culpa foi da IA, a IA que fez”.
34:55
Você ouviu agora um trechinho de “Força Verde”, do grande Zé Ramalho, lançado em 1982. E eu trouxe isso pra comentar um caso bem conhecido até, que é de plágio envolvido nessa música. Quando o Zé Ramalho foi fazer a letra pra essa canção…
35:18
ele resolveu pegar um texto que ele tinha lido na revista O Incrível Hulk número 1, que tinha sido publicada no Brasil dez anos antes, e ele leu do início ao fim um texto que estava na revistinha. Isso por si só já seria problemático, porque alguém escreveu esse texto, mas, para piorar a situação, o texto era, na verdade, a tradução de um poema do W. B. Yeats, que é um poeta irlandês muito conhecido. E, para dobrar a falta de sorte, um fã…
35:48
de quadrinhos, Jefferson dos Reis Farias, reconheceu o texto da revista quando viu uma apresentação do Zé Ramalho no Fantástico. E aí ele mandou essa denúncia para o jornal A União, na Paraíba, e isso rendeu um problemão, porque, no fim das contas, o Zé Ramalho foi acusado de plágio e teve que entregar parte dos direitos dessa música para o espólio do poeta. E eu conto essa história porque ela serve para ilustrar um dos grandes problemas do uso de IA generativa. O Zé Ramalho…
36:18
pegou esse texto sem saber que era uma obra de um poeta irlandês e isso acabou causando um grande problema, porque ele não tinha essa referência e não reconheceu o texto, e assim usou, achando que não ia ter nenhum problema. E isso pode acontecer em qualquer ferramenta de inteligência artificial e chatbot que a gente usa hoje em dia. Você faz uma pergunta e a verdade é que tudo que ele tem como resposta ele raspou da internet, de livros, da Wikipédia, de algum lugar, e ele te entrega aquilo como uma resposta sem avisar a origem.
36:47
Se você acreditar muito no que está ali, você pode acabar fazendo uso daquele material e cometer algum tipo de infração em relação ao direito autoral sem nem saber. E isso é um problema quase infinito, porque esses laboratórios de IA ingeriram quase tudo quanto é possível e imaginável para treinar esses modelos e seguem querendo mais. A 404 Media, de novo eles, fez uma reportagem sobre uma empresa que estava oferecendo para os laboratórios de IA até um milhão de exemplares de livros…
37:15
para serem digitalizados e usados nos treinamentos. E a melhor forma de treinar esses modelos hoje é você usar livros que tenham sido impressos antes de 2022. Essa data é importante porque é quando foi lançado o primeiro chatbot de IA realmente popular, o ChatGPT, e, a partir daí, a gente começa a ter muito conteúdo gerado por IA entrando na internet. Então tudo que foi publicado antes de 2022…
37:42
é teoricamente livre de IA e, por isso, é um material premium pro treinamento desses modelos de IA, porque são livros que trazem textos de conhecimento humano, que foram revisados, estruturados, especializados. Uma coisa que você não consegue quando você sai raspando qualquer conteúdo na internet e que ficou muito pior a partir de 2022, quando você começa a raspar conteúdo na internet que talvez tenha sido gerado por uma IA e já venha com problemas e que possa causar mais problemas…
38:10
como serviu para ilustrar a anedota que eu contei do Zé Ramalho, apesar de ela ter acontecido bem antes dos problemas que a gente vê hoje com IA. Então, uma empresa chamada ISBNdb estava oferecendo para os laboratórios a aquisição de até um milhão de exemplares para a digitalização e treinamento desses modelos. Só que até aí não tem tantos problemas, inclusive porque a Justiça, até aqui, está reconhecendo como um uso justo o uso de material de livro para o treinamento desses modelos de linguagem, como se fosse alguém aprendendo…
38:38
ao ler muitos livros. Só que esses sistemas leem milhares de livros em segundos e têm um uso comercial imediato daquilo. O verdadeiro problema da ISBNdb foi o método, porque, para digitalizar esses livros em escala, o que eles fazem é cortar a lombada do livro, soltar as páginas todas, e assim eles conseguem botar essas páginas passando por scanners super-rápidos. E depois os exemplares acabam indo para o lixo, porque viram um monte de livro desconstruído, destroçado, que não serve para nada.
39:07
E eles fizeram isso com um monte de obra rara, livro fora de catálogo. Ou seja, essencialmente, encerrando o acesso a algumas obras que só podem ser encontradas agora dentro dos arquivos de treinamento desses modelos, aos quais ninguém nunca vai ter acesso. O caso serve para mostrar o tamanho da sede desses laboratórios de IA, que estão dispostos a destruir milhões de livros para melhorar o seu sistema, supostamente melhorar esses sistemas.
39:35
E toda vez que você fala em destruir livros, você vai lembrar só de casos horrendos na história, né? Queimar livro nunca foi um bom sinal cultural e acho que nunca vai ser. Mesmo que aqui não estejam sendo queimados, estejam sendo destroçados. Depois que o caso teve uma repercussão enorme, a empresa tirou as páginas do site que falavam desse serviço e falou que, na verdade, nunca…
39:57
funcionou o serviço. Eles só estavam rodando uma landing page para fazer um teste de interesse comercial, só para ver como repercutia. Bom, está aí, repercutiu superbem. Eu acho que a empresa vai ficar queimada por um bom tempo. E, se você acha que o único risco é para os livros, o seu conteúdo também está em perigo. Quando você tem uma conversa com o Claude, você pode pegar um link público daquilo e mandar para alguém, para ver o que você conversou, ver ali os resultados. O ChatGPT também faz isso.
40:26
Só que várias dessas conversas que foram compartilhadas através de links acabaram aparecendo nas buscas do Google e do Bing. E vários conteúdos desses estavam com pedidos de orientação política, tinham dúvidas jurídicas, tinham até interações de teor erótico. E esses links podem ser acessados por qualquer pessoa que receber um deles. E, se ele aparece no Google, significa que qualquer pessoa pode receber. E, apesar de a Anthropic usar um arquivo robots.txt…
40:54
instruindo os mecanismos de busca para não indexar essas páginas, mesmo assim elas acabaram sendo indexadas. Só que a Wired conferiu e várias dessas páginas não tinham a instrução chamada noindex, que é recomendada pelo Google, pelo Bing, para excluir os conteúdos dos resultados de pesquisa. Ou seja, por conta disso, estavam aparecendo. Então alguém podia fazer alguma busca e o Google e o Bing entregavam um desses chats como resultado, porque tinha o tema sendo discutido dentro daquela conversa.
41:24
E é por isso que a gente tem que tomar tanto cuidado com o que digita nesses bots. Por exemplo, se alguém tivesse tido uma conversa relacionada à sua carteira cripto e lá botasse a sua senha de acesso, sei lá, MetaMask, alguma carteira digital de cripto, essa senha poderia ter sido indexada no Google e aparecido para alguém, alguém fazendo uma busca um pouco mais direcionada, e invadir e roubar os fundos dessa carteira inteira. Isso pra ficar num dano material, né?
41:51
Para não falar nos danos de privacidade, reputacionais, que podem surgir a partir de uma conversa dessa se ela for tornada pública. O mundo está acelerado, mas parece que a gente está andando no fio da navalha. Por isso, uma reportagem do New York Times chamou muito a minha atenção, que dizia que as empresas de IA recrutam milhares de eletricistas e de carpinteiros. Eu já falei por aqui sobre vários profissionais, inclusive eletricistas, carpinteiros e cozinheiros, sendo contratados para filmar a própria atividade…
42:19
para esse material ser usado para treinar robôs no futuro. Mas, nesse caso, esses carpinteiros e eletricistas estão sendo contratados para trabalhar na construção desses data centers, que têm rede elétrica, têm sistemas de refrigeração, têm cabos, estrutura, têm concreto, têm carpintaria, têm muita coisa que tem que ser feita por algum humano. A reportagem fala que OpenAI, Google, Meta, Microsoft, BlackRock, todos estão disputando eletricista, carpinteiro, encanador, soldador, técnico de climatização…
42:48
e que só no novo campus Stargate da OpenAI, em Michigan, eles devem empregar mais de 2.500 trabalhadores durante a construção, além de 450 pessoas depois da inauguração. Isso inclui centenas de eletricistas que estão cumprindo jornadas de dez horas por dia, sete dias por semana. Para conseguir atrair tanta gente, eles estão pagando 42% a mais do que a mesma função em outros setores.
43:13
Só que, além de se retirarem profissionais dos serviços essenciais, porque as pessoas querem trabalhar nisso ganhando muito mais, aí falta, por exemplo, para manutenção elétrica nas cidades, para construção de moradia, para obra pública, para hospital. Então vira uma disputa entre o setor privado e o setor público em muitos aspectos. Só que o problema é que essa supercontratação é momentânea, porque, depois que o data center está pronto, essas milhares de pessoas vão perder o emprego e eles vão contratar centenas.
43:43
E aí muita gente vai ficar desempregada. A Meta e o Google estão criando vários programas gratuitos de formação e garantindo emprego a quem concluir pra trabalhar na área de IA. Inclusive, essas pessoas podem fazer parte desse processo. O problema é que vai ter menos vaga, né? Nem todo mundo vai ser contratado depois. E essa história toda serve pra dar uma materializada na coisa, né? Uma aterrissada. Porque essa infraestrutura de IA que a gente usa através da nuvem, no celular, no computador, ela é bem pouco virtual.
44:12
Ela é construída mesmo. Tem um data center em algum lugar, com fio, com cano, com gente trabalhando de capacete, com madeira subindo, com água correndo. A coisa é bem real e bem concreta, embora seja vendida pra gente sem nenhum desses atritos, né?
44:32
E agora é hora de falar sobre como as Big Techs moldam nosso comportamento.
44:43
Mark Zuckerberg diz que o governo não deveria bloquear a IA chinesa. O CEO da Meta está também fazendo campanha para levar a superinteligência a mais pessoas. O Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e atual CEO da Meta, está numa cruzada para criticar o que ele está chamando de concentração de poder na inteligência artificial. O que ele está dizendo é que algumas poucas empresas estão controlando o mercado inteiro. Obviamente, ele está falando da OpenAI, da Anthropic e do Google…
45:11
e que, pra ele, esse tipo de domínio não é de interesse público, porque essas empresas podem manter os modelos mais poderosos sob o controle fechado delas, justificando isso como uma decisão de risco de segurança, e assim as pessoas, de maneira geral, não têm acesso e ficam dependentes dessas empresas. Então ele fala que o que precisa ser pensado são os modelos de código aberto. Porque, mesmo nesses modelos abertos das empresas privadas, só é aberto o que é chamado de pesos, né? Que é…
45:41
a forma do sistema trabalhar. Os dados mesmo, você não sabe. Então, Zuckerberg está defendendo uma coisa que até faz sentido: que esses sistemas deveriam ser abertos para as pessoas poderem configurá-los da melhor maneira possível para o seu uso. Só que é muito curioso ver o Zuckerberg reclamar de centralização e concentração de poder, ele que domina as redes sociais e que compra mais e mais empresas, como o WhatsApp, e vai dominando esse setor.
46:06
Agora que a coisa mudou de figura e as redes sociais não são a coisa mais importante da internet, ele começa a reclamar de centralização. E também, para ele, é fácil cobrar dos laboratórios de IA que sejam abertos, porque a Meta lucra com publicidade, com o aumento do próprio ecossistema. Então ele pode distribuir um modelo de IA sem cobrar diretamente pelo acesso. E, se ele faz isso e quer que as outras pessoas façam isso, os concorrentes ficam enfraquecidos porque não vão conseguir vender assinatura, não vão conseguir vender API.
46:35
E, para ele, é muito bom que isso seja aberto agora. É a discussão de sempre. As empresas que estão dominando os mercados querem regulação, porque assim impedem a chegada de novos entrantes, querem sistemas abertos, porque assim conseguem enfraquecer os concorrentes. No fundo, para surpresa de ninguém, tudo é disputa de poder. Também no New York Times, um artigo falou sobre como a busca por IA do Google pode ameaçar a internet aberta. E aí fala sobre como o Google construiu o império deles justamente sendo uma ponte entre o usuário e o site…
47:05
e agora eles começaram a substituir essa ponte por um muro, como eu falei no bloco de IA agora há pouco. Em vez de apresentar uma lista de links, hoje em dia o AI Mode do Google usa o Gemini para ler as páginas, sintetizar o material e entregar uma resposta completa dentro do Google, sem levar o usuário para nenhum site. E isso pode ser bom no primeiro momento para o usuário, porque ele ganha conveniência, só que o site que produziu a informação não recebe a visita, não tem publicidade, não ganha um assinante…
47:33
e não consegue nem criar uma relação com esse leitor. E esse problema já é real. Hoje em dia, as pessoas ficam entre um e nove minutos a mais numa resposta de IA do que ficavam numa busca tradicional. E o estudo citado na reportagem do New York Times fala que, em 75% das sessões, o usuário não abriu nenhum link externo. Isso bate com dados da Cloudflare, que falam que as visitas a sites de mídia, finanças e comércio…
48:02
caíram quase 40% entre junho de 2025 e abril desse ano. A Wikipédia sozinha registrou uma queda de 8% em visitantes humanos, ao mesmo tempo que percebe que tem muito mais visitas de robôs interessados em pegar os dados que estão lá catalogados.
48:20
O resultado disso é muito simples, né? Antes, o Google copiava, organizava os trechos, mas enviava as pessoas direto para a fonte. E agora, com a IA, só extrai o conteúdo, mantém o público todo lá dentro do Google, vende anúncio lá dentro, em torno dessa resposta. Só que isso é uma relação parasitária, porque, se os sites deixam de receber dinheiro, de receber audiência, vão produzir menos informação original. E, sem informação original, os modelos de IA ficam dependendo de conteúdo velho, de conteúdo superficial ou, pior…
48:47
de conteúdo gerado por outra IA, o que leva ao problema que eu falei ali dos livros. Você fica alimentando os modelos com textos de pior qualidade e isso derruba a qualidade do sistema como um todo. E a minha esperança passa muito por aí. O grande benefício de fazer o estrago que está sendo feito na internet, para os sites e para todo o ecossistema, é que isso pode virar realmente a grande fragilidade para os próprios laboratórios de IA. No fim das contas, vai ter que se encontrar um modelo equilibrado…
49:17
em que as pessoas estejam incentivadas a produzir conteúdo e em que isso seja financeiramente possível. É assim que funcionava aos trancos e barrancos até bem pouco tempo, embora já estivesse funcionando bem mal. E agora vai ficar mais urgente.
49:33
Hora de relaxar com as dicas de ver, ler e ouvir.
49:48
A Kalshi, que é uma das plataformas de mercado preditivo que ficaram mais famosas, principalmente durante as eleições dos Estados Unidos, mandou uma carta para a Netflix exigindo a retirada do trailer do Instadocs: The Prediction Games, um documentário sobre a ascensão dos mercados preditivos e de aposta. Obviamente, o que a Kalshi quer é dar uma abafada na discussão, mas a justificativa é que, em alguns segundos do trailer, aparece uma festa em Las Vegas…
50:16
onde hoje a Kalshi está proibida de operar por ordem judicial, e eles estão alegando que o print é de 2025 e que, da forma que está editado, faz parecer que o cara postou ali naquele dia, naquele final de semana. E aí é engraçado, porque uma das grandes peças de venda da Kalshi é dizer que eles destilam a verdade, que são mais confiáveis que uma pesquisa eleitoral, mas agora querem ir pra Justiça contra um trailer em cima de um papo de um recibo velho que nem cola muito, né?
50:43
Em todo caso, o documentário está disponível na Netflix. Vale a pena assistir.
50:53
Hoje a dica musical é uma dica medíocre. Isso não quer dizer que a dica é ruim. Medíocre é o nome do projeto do nosso Hugo Rocha, o nosso editor de áudio e mixagem aqui do RESUMIDO. E, para apresentar a sua obra, eu vou convidar o próprio Hugo. Conta aí. Fala mais do Medíocre. Medíocre é um EP com cinco músicas frenéticas, como vocês podem perceber, com paisagens sonoras bem…
51:22
texturais, ritmos meio desconcertantes, sincopados. Vem de uma pesquisa minha com ritmos eletrônicos e da ideia de recriar, destruir gêneros, misturar diferentes linguagens. Tá em todas as plataformas e, se quiserem saber mais, tem no meu Instagram, @uo___oa. Valeu, Bruno!
51:48
Nesse episódio você ficou sabendo que escolas nos Estados Unidos passaram a instalar drones de spray de pimenta contra atiradores, que a queda de um avião civil no Novo México foi atribuída a drones militares, que o governo processou um manifestante por apagar o próprio celular, que modelos de IA mentiram e se uniram para gerir uma máquina de vendas, que Zé Ramalho plagiou o Hulk sem saber, que chats privados do Claude vazaram no Google, que o Google ergue uma cerca de IA em torno da internet e muito mais.
52:22
E, se você gosta do RESUMIDO, é hora do meu pedido. Aí, rimou? Recomenda pra mais gente. Manda no grupo do WhatsApp, posta nos stories, bota no grupo de moradores do seu prédio, comenta com alguém no elevador, na hora que você for tomar uma água no trabalho. Enfim, fala com mais gente sobre o RESUMIDO, que só assim esse podcast vai mais longe. É muito importante. A dica de alguém que a gente conhece é sempre muito valiosa. Eu te agradeço demais se você puder fazer isso.
52:46
E, se você puder também curtir, assinar, seguir, dar cinco estrelinhas e deixar uma resenha na plataforma em que você estiver escutando esse episódio agora, também ajuda demais.
E se quiser comprovar que ouviu esse episódio até o final, é só deixar um comentário com a palavra secreta da semana que é: Drone
52:57
RESUMIDO é produzido e apresentado por mim, Bruno Natal
O roteiro é escrito por mim e pelo Agenor Neto
O Cauê Marques co-edita a newsletter O Futuro Explicado e as redes sociais, que contam com animações do Peri Semmelmann e design do Felipe Araújo
A edição e mixagem são feitas pelo Hugo Rocha da Usina Sons
A foto da capa é do Jorge Bispo
E o tema original foi composto por Gustavo Silveira
Sou o Bruno Natal, obrigado pela audiência e semana que vem tem mais RESUMIDO!